quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Fabricando o Rei do Pop

Por Michael Goldberg


Em 1991, o mundo aguardava ansiosamente o novo álbum de Michael Jackson. Dessa vez, o astro não estaria acompanhado do produtor Quincy Jones, responsável pelo toque de Midas dos sucessos anteriores. E sua força icônica foi comprovada com a imposição de um título: Rei do Pop


Reportagem publicada originalmente na edição 621 da RS EUA (janeiro de 1992)
Reportagem publicada originalmente na edição 621 da RS EUA (janeiro de 1992)





Os sete anões estão cantando. Suas vozes saem de alto-falantes escondidos entre as árvores e da incrível flora que cerca a mansão de Michael Jackson, em Neverland Valley - seu oásis de 1.092 hectares e U S$ 22 milhões no Vale de Santa Ynez, uma hora ao norte de Santa Barbara, Califórnia. "O Xanadu particular de Michael", como seu amigo, o diretor John Landis, descreve. Em Neverland, Jackson criou um ambiente escondido e protegido, longe de executivos, advogados, gerentes, VIPs dos canais musicais de TV e até de seus familiares. Aqui, ele pode ficar na frente de casa e os únicos barulhos que escuta são os pássaros nos carvalhais e plátanos e, claro, os Sete Anões. Se ele decidir olhar além do amplo lago em frente à sua casa de campo de três andares em estilo Tudor, além do belo gramado e dos canteiros de flores bem cuidados, das estátuas de bronze de meninos tocando tamborins ou acordeões de brinquedo, ele vê simplesmente uma colina tranquila, pontuada por carvalhos.

Em qualquer direção, até onde os olhos conseguem ver, está o Reino Mágico de Michael Jackson. "É claro que ele tem um pouco de medo de pessoas", diz o coreógrafo Vince Paterson. "Quando existe gente que, desde que você é criança, quer pedaços de você, suas roupas, seu cabelo - é normal ficar nervoso em volta delas." À noite, parece que houve uma chuva de pó de pirlimpimpim de alta tecnologia em Neverland. Perto do parque de diversões, por exemplo, Jackson instalou luzes brancas no tronco e nos galhos dos carvalhos. Enquanto essas luzes piscam, árvores brilhantes parecem se materializar diante de nossos olhos e depois desaparecem. Uma estrada sinuosa de tijolos amarelos leva ao parque de diversões, aceso em contraste com o céu escuro. A casa, o lago, as estátuas e os próprios edifícios de madeira e pedra parecem saídos de um conto de fadas. Em meio a esse ambiente mágico, Jackson às vezes entra na hidromassagem externa, retira uma grande rocha que esconde uma TV e um videocassete e, sentado sob as estrelas, assiste a uma das centenas de vídeos guardados em sua videoteca no andar superior da casa principal.

Jackson frequentemente recebe crianças para brincar. De acordo com seu porta-voz Bob Jones (que trabalhou pela primeira vez com ele na Motown, quando o cantor era integrante do Jackson 5), isso normalmente inclui "ônibus cheios" de crianças carentes e doentes terminais, além de jovens amigos do superastro. "Quando as crianças estão aqui, às vezes elas ficam tão empolgadas que não conseguem dormir", diz Lee Tossir, que ajudou a projetar o cinema de Jackson e serve como seu projetista. "De vez em quando, recebo uma ligação às 2 da manhã: 'Lee, você pode passar o filme tal?' Neverland não é um lugar onde crianças vão dormir no horário certo - elas realmente dominam o lugar quando estão aqui." Jackson adora crianças. Quem o conhece acredita que um motivo pelo qual ele pode relaxar com elas é que ele realmente acredita que as crianças gostam dele pelo que ele é, não por que é um grande astro. Como um funcionário observa: "Se você tem menos de 91 centímetro de altura, pode ter acesso total ao Michael Jackson".

Ironicamente, à medida que Neverland se torna ainda mais mágica e etérea, o próprio Jackson não consegue aproveitá-la. Na maior parte dos três anos desde que a comprou, ele ficou mais em Los Angeles, enfurnado em diversos estúdios de gravação escuros. Agora que o álbum está pronto, ele ficará ocupado durante meses, filmando clipes para as diversas músicas de Dangerous e cairá na estrada para divulgar o disco até meados de 1992. Os planos de turnê não foram formalizados, mas está claro que Jackson, decidido a continuar no topo do mundo do entretenimento, irá tomar seu tempo e fazer o show o mais espetacular possível. "O plano é que ele comece a trabalhar em seu filme", diz Bob Jones, que há três anos trabalha para a própria companhia do astro, MJJ Productions. "Mas nunca se sabe, com Michael isso pode mudar . Desde que entrei, Michael tem controle total. Ele sabe o que funciona para ele e para o público, é muito mais fixado em suas idéias sobre como quer fazer as coisas." Uma coisa é certa: Jackson não passará muito tempo à beira da piscina em Neverland, pois, como todo mundo já sabe, o show de Michael Jackson está, mais uma vez, aberto para negócios.

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